Fonoaudiologia

Apraxia de fala na infância

De acordo com a fonoaudióloga Elisabete Giusti, consultora técnica da Abrapraxia (Associação Brasileira de Apraxia de Fala na Infância), a apraxia da fala na infância é um transtorno motor, no qual a criança sabe o que quer falar, compreende o que é falado para ela, mas tem dificuldade de produzir os sons da fala.

“É como se o cérebro soubesse o que quer falar, mas tem uma falha na hora de enviar os comandos para os músculos da boca reproduzirem os sons. Esse transtorno afeta o planejamento e a programação da fala”, explica.

Essa dificuldade pode ser ocasionada por alterações genéticas em crianças que tiveram algum problema durante a gestação ou durante o nascimento, como a falta de oxigenação, ou pode não ter a causa identificada. Há também a associação da apraxia entre crianças que tenham transtornos do neurodesenvolvimento, como a Síndrome de Down ou o Autismo.

Entre alguns sintomas que podem indicar a apraxia estão as crianças a partir de 18 meses de idade com um repertório verbal limitado, sem aumento de vocabulário; crianças que falam apenas algumas sílabas das palavras; crianças que falam palavras curtas ou monossilábicas; crianças que compreendem muito bem, mas falam pouco; crianças que falam de maneira ininteligível, sem clareza de fala e erros de sons, dificultando o entendimento até mesmo dos pais; e crianças que falam em um mesmo tom, ou seja, perguntas e exclamações são faladas de um mesmo jeito, como uma afirmação.

Elisabete explica que a apraxia de fala é diferente da apraxia oral, pois, no segundo caso, a criança tem dificuldade em realizar movimentos orais, como sugar no canudinho, mandar beijos e mastigar, o que dificulta a alimentação.

A fonoaudióloga afirma que é um erro dizer que aquela criança não fala por preguiça ou que ela não fala por falta de estímulo, pois isso esconde a real dificuldade que ela possui.

“Essas crianças têm noção da sua dificuldade, elas querem se comunicar, querem chegar na escola e chamar o amigo para brincar, mas elas não conseguem falar. Isso gera baixa autoestima, timidez, retraimento, dificuldade para socializar, e elas podem se fechar, porque isso causa sofrimento”, afirma Elisabete.

“Esse diagnóstico é importante porque é um transtorno que afeta o planejamento da fala, é uma alteração motora, e o tratamento é diferente porque é totalmente voltado para essa alteração. Então, sem o diagnóstico, o tratamento oferecido pode não ser aquele que a criança precisa, não respondendo à terapia oferecida”, explica a fonoaudióloga.

Elisabete afirma que as manifestações da apraxia podem ser desde leves a severas, ocasionando muita dificuldade para aquela criança, podendo ter o tratamento como um desafio.

O diagnóstico de apraxia de fala é realizado por qual profissional?

Pais, familiares, professores, profissionais de outras áreas podem suspeitar do diagnóstico. No entanto, especificamente a Apraxia da FALA é de responsabilidade do Fonoaudiólogo com expertise na área, como conhecimento sobre os transtornos motores de fala. Apraxia ou Dispraxia de membros inferiores e superiores (ou reconhecida no CID como o Transtorno do desenvolvimento da coordenação motora) é de responsabilidade de outros profissionais, como Fisioterapeutas, Terapeutas Ocupacionais, Médicos, etc.

O diagnóstico é realizado de maneira clínica, por meio do histórico do paciente. Elisabete ressalta que é necessário que o diagnóstico seja realizado por um profissional que tenha conhecimento pois, muitas vezes, por ser um problema desconhecido para muitos médicos, pode não ser identificado.

O diagnóstico é considerado para a escolha do melhor tratamento?

O diagnóstico é o primeiro passo para a intervenção adequada. A partir do diagnóstico é possível elaborar um planejamento terapêutico que seja individualizado e específico para cada paciente e sua família.

O tratamento é feito por meio da terapia fonoaudiológica de maneira individualizada, abordando as maiores dificuldades daquela criança. A fonoaudiologia ensinará, por meio da repetição, visualização da fala e com a ajuda do profissional, que posicionará a boquinha da criança para os movimentos da fala, como a dicção e os sons devem ser realizados. A frequência das consultas pode variar de duas a cinco vezes por semana, dependendo do grau de comprometimento da fala dessa criança.

Sabemos, que Crianças tem motivações diferentes, tem respostas diferentes às intervenções umas irão se beneficiar de pistas mais salientes, como as táteis, outras não aceitarão o toque e, portanto, estas pistas já não serão possíveis, umas conseguem um melhor foco de comunicação, enquanto outras, ainda não conseguem sustentar a atenção por muito tempo. Enfim, embora tenhamos disponível um conjunto de estratégias e abordagens, a análise personalizada de cada caso, indicará qual o melhor caminho para que possamos alcançar resultados consistentes. E o principal, estamos nos referindo às crianças, o que nos obriga a buscarmos motivação e leveza, num trabalho que é tão árduo e desafiador para elas.

 “Falar para essa criança não é algo natural. Os pais devem participar desse tratamento e ajudar na prática diária da fala, mas não devem fazer muitas perguntas, pois atrapalha a criança, que fica na ansiedade para responder e a fala não consegue sair”, finaliza Elisabete.

Fonte:


09/03/2020